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A água na periferia sul: direitos, sobrevivência e o futuro das comunidades

“A água é o princípio de todas as coisas”, declarou o filósofo turco Tales de Mileto.”

A água é essencial no mundo e impacta a sobrevivência de todos os seres vivos que habitam o planeta terra, inclusive dos seres humanos, compondo até 60% do corpo e sendo usada em todas as reações químicas. É um dos recursos mais potentes e versáteis que existem: ela mata a sede, nutre, limpa, produz e abriga!

A água é inerente ao homem, a vida. Com ela e por ela, o mundo vive momentos turbulentos: seca, crises de racionamento que, em tempos de pandemia, escancara grande parcela da população brasileira que não tem acesso a água potável e saneamento básico.

Por esses e outros aspectos, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou no dia 22 de março de 1992 o Dia Mundial da Água com objetivo de fortalecer o debate acerca dos assuntos que envolvem esse importante recurso natural. Na mesma data, para selar esse compromisso, a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos da Água, que reforça as necessidades, cuidados e a importância da água para o mundo.

Isso porque, dados das Nações Unidas estimam que, em 2050,  dois de cada três habitantes do planeta serão afetados pela escassez de água em decorrência de seu uso excessivo para a produção de alimentos. Atualmente, 29 países já sofrem com falta de água

 

Água na periferia sul de São Paulo

Pensar na situação da água no Brasil é uma situação muito delicada, sobretudo nas periferias do país.

Na periferia sul de São Paulo, por exemplo, está o Sistema Guarapiranga, o segundo maior reservatório hídrico da Região Metropolitana que produz 14 mil litros de água por segundo e abastece mais de quatro milhões de moradores das regiões sul e sudoeste da capital, além de alguns municípios adjacentes como Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu.

Além disso, na região sul, nos distritos de Marsilac e Parelheiros, estão também os rios Monos e Capivari, os únicos limpos e aptos para banho da cidade de São Paulo.

Mas, apesar da abundância de um lado, do outro existe uma realidade de tristeza e escassez onde os mais atingidos são aqueles que menos são atendidos pelo poder público.

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, a coordenadora da União dos Movimentos de Moradia Popular (UMMP) Graça Xavier fala sobre a situação do saneamento básico e das redes de esgoto nas comunidades da cidade de São Paulo:

 

“A grande maioria das favelas de São Paulo ainda funcionam com o famoso ‘gato’. Abre o buraco, corta e encana a água de qualquer jeito. Rede de esgoto, a grande maioria também não tem, é esgoto a céu aberto. Às vezes esse ‘gato’ foi feito de várias formas que o último barraco a água só chega dois, três dias depois. Então as pessoas estão pegando água de balde, de galão. Como a gente responde a tudo isso?”.

 

Dentro da periferia sul de São Paulo, muitos moradores e iniciativas estão de olho e lutando por melhores condições de vida, por seus direitos básicos e pela preservação do meio ambiente.

Uma delas é o Instituto Favela da Paz, localizado no Jd. Nakamura (Jd. Ângela). Organizado pelo grupo Poesia Samba Soul, o instituto tem o objetivo de criar uma “comunidade de paz onde as pessoas possam viver no respeito mútuo dentro dos princípios da sustentabilidade”.

Outra é o Megê Design Sustentável, uma das iniciativas apoiadas pela Fundação ABH e parceiros. Diogo Menezes, seu idealizador, atua há nove anos na área de ecologia, sustentabilidade e bioconstrução. Ele é co-fundador da Rede Permaperifa, um movimento de pessoas, coletivos, grupos e espaços culturais que aplicam os princípios da permacultura nas periferias.

Toda essa articulação tem o objetivo de promover uma conscientização ambiental sobre os cuidados com o planeta Terra, com as pessoas e nossos recursos naturais, através de “prestação de serviços, cursos, eventos, rodas de conversa e práticas nas escolas e Unidades Básicas de Saúde (UBS)” e assim criar ciclos permanentemente ecológicos.

Diogo explica que esse sistema visa ampliar os recursos disponíveis, não destruí-los. E um dos principais e mais abundantes no Brasil é a água, porém, distribuído de forma desigual no território.

“A falta desse recurso é uma grande falta de logística e organização ecossocial que nós não temos. O Brasil, por exemplo, é o país que mais tem água doce no mundo, e é um dos países que mais polui água no mundo”, ressalta o bioconstrutor.

Ele também enfatiza que todo dia é dia de celebrar a água, pois ela é “um recurso primordial para a existência da vida na terra”. O que fazer para cuidar do nosso bem maior? Diogo fala sobre alguns dos principais fatores que prejudicam o ciclo da água no Brasil:

Para Diogo, o ideal é que todos possam usufruir de água tratada e adequada para o consumo humano, bem como todas as rodovias, estradas, ruas e alamedas possam ser feitas sem prejudicar o curso e o ciclo natural das águas brasileiras,  preservando, assim, 30%, ou mais, de sua mata ciliar (que protege os rios e lagos), mas “não é o que acontece no Brasil, a gente aterra os rios, aterra as águas, a gente rasga cachoeira, a gente rasga riacho, e isso proporciona enchentes, etc.”, explica.

Ele lembra que seu pai dizia: “a água ainda vai ser mais cara do que a gasolina” e hoje constata que ele estava certo, por isso acredita que o Dia Mundial da Água tinha que ser reverenciado com um grande evento para “olhar, questionar, mergulhar profundamente nesse carinho que nós precisamos ter com o nosso bem maior”.

Diogo, então, finaliza: “A gente só se lembra de olhar para as coisas que cuidam da gente, quando essa coisa não cuida mais da gente. Então, é melhor a gente prestar atenção no que estamos fazendo com a água”.

 

O Brasil e sua relação com a água

O Brasil é o país que mais tem água doce disponível no mundo, cerca de 12% do total existente na Terra. Para se ter uma ideia, o que o Brasil possui de água doce é maior que toda a Europa e o continente africano.

Além disso, aqui estão dois dos maiores aquíferos do mundo: o Guarani, com cerca de 1.200.000 Km², localizado no centro-sul do país e que se estende ainda pelos territórios do Uruguai, Argentina e Paraguai; e o Alter do Chão, na região norte brasileira, com 437,5 mil Km², sob os estados do Pará, Amapá e Amazonas.

Para compreender melhor, os aquíferos são unidades geológicas nas quais se infiltra e se armazena água que pode ser utilizada como fonte de abastecimento.

Com tanta abundância, como explicamos os graves problemas sanitários que o Brasil enfrenta?

 

Distribuição da água para os seres humanos

O planeta Terra é repleto de água, aproximadamente 70% de sua constituição. Estima-se que apenas 0,77% de todo esse universo está disponível para o consumo humano. Fato que leva a uma discussão ainda maior: a desigualdade na distribuição e no acesso à água.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, aproximadamente 10% dos domicílios do país não possuíam abastecimento de água diário, impactando diretamente a saúde pública e o controle de pandemias como a do Covid-19.

De acordo com dados Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), quase metade da população brasileira, cerca de 47% do total, não tem acesso a rede de esgoto e 46% utilizam medidas alternativas para suprir essa demanda que é um direito básico do povo.

Dentre as alternativas para lidar com este problema, as mais comuns são a criação de fossas e o despejo do esgoto diretamente nos rios, que gera um novo problema, a poluição e destruição do meio ambiente necessário para a sobrevivência de determinadas espécies de seres vivos.

Em se tratando do consumo, temos ainda um outro dado preocupante: 16% dos brasileiros, aproximadamente 35 milhões de pessoas, não têm acesso a água tratada.

Em tempos de pandemia da Covid-19, em que a palavra de ordem é higiene, como podemos lidar com essa situação? Uma grande parcela da população não tem os recursos necessários para um escoamento sanitário decente, ocasionando a poluição hídrica e facilitando a propagação do vírus que atinge o mundo.

Isso mesmo que você acabou de ler. Apesar da principal forma de transmissão do Sars-CoV-2 ser pelo ar, o esgoto também é um grande risco para os brasileiros.

Recentemente, a Fiocruz colheu amostras do esgoto de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, e encontrou amostras do vírus entre 80% e 90% dos pontos pesquisados em janeiro de 2021

 

O quê podemos fazer?

Preservar o meio ambiente e os recursos que ele nos fornece é um trabalho coletivo que precisa da contribuição e consciência de cada pessoa.

Separamos algumas dicas do que cada um de nós podemos fazer para cuidar desse elemento tão essencial para a nossa existência: a água.

  • Fechar bem as torneiras;
  • Desligar o chuveiro se não estiver usando;
  • Fechar a torneiro quando estiver escovando os dentes;
  • Para lavar o carro prefira o balde e não a mangueira;
  • Faça a manutenção de válvulas de descarga e torneiras para evitar vazamentos;
  • Podemos reutilizar a água que sai da máquina de lavar para limpar a calçada;
  • Podemos reutilizar a água da chuva para regar as plantas, lavar o quintal;
  • Não jogue lixo nos rios nem no mar;
  • Participe e divulgue iniciativas e campanhas em prol do Meio Ambiente.

Fonte: https://www.centralnacionalunimed.com.br/viver-bem/saude-em-pauta/economizar-agua / Ilustração: Ana Carla Bortoloni

 

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