Pandemia Sem Fome: A insegurança alimentar dos brasileiros em tempos de Covid-19

A fome atingiu 19 milhões de brasileiros durante a pandemia em 2020, é o que diz o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede PENSSAN. A pesquisa, que levou o nome de “Olhe Para a Fome”, foi realizada em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020.

Os brasileiros que foram atingidos pela fome estão entre as 116,8 milhões de pessoas que conviveram com algum grau de insegurança alimentar no Brasil no último trimestre de 2020, correspondendo a 55,2% dos domicílios. Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave).

Entre 2013 e 2018, segundo dados da PNAD e da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), a insegurança alimentar grave teve um crescimento de 8,0% ao ano. A partir daí, a aceleração foi maior: de 2018 a 2020, como mostra a pesquisa VigiSAN, o aumento da fome foi de 27,6%.

Segundo dados da pesquisa “Olhe Para a Fome”, em apenas dois anos, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões. Nesse período, quase 9 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a ter a experiência da fome em seu dia a dia.

Tais dados evidenciam como a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou e intensificou a insegurança alimentar em todo o país.

Pandemia Sem Fome e a insegurança alimentar na periferia

Diante da pandemia e da insegurança alimentar, a Fundação ABH criou a campanha “Pandemia Sem Fome”, que tem como objetivo apoiar, por 6 meses, as famílias que mais precisam, através de doações para a compra de alimentos.

Antes da pandemia, a Fundação ABH trabalhava com outras metas, porém, com a Covid-19, as prioridades mudaram e ficou nítida a necessidade de atender a população nesse momento de crise na saúde pública, levando comida à mesa de tantas famílias que dependem de doações para se alimentarem.

“A gente entende que nesse momento a prioridade se inverteu, não adianta focar em algo que não é prioritário para as pessoas com quem trabalhamos. E por isso hoje focamos na fome”, diz Marina Fay, Diretora Executiva da Fundação ABH.

Em 2020, trabalhando em parceria com atores locais e parceiros que têm o objetivo comum de desenvolver o território , a Fundação ABH conseguiu alcançar mais de 80 mil pessoas e, em 2021, está dando continuidade a este importante projeto. No entanto, em 2021, ao invés de cestas, tem focado na distribuição de cartões alimentação no valor de R$ 200,00 por mês com a perspectiva de dar esse apoio durante 6 meses para cada família pois entende que não é apenas com uma cesta que a situação será amenizada, uma vez que os efeitos da fome perduram. A escolha pelo formato de cartão tem vários motivos: flexibilidade para a família comprar o que realmente precisa, qualidade nutricional da alimentação que aumenta muito com o cartão pois permite a compra de alimentos perecíveis e saudáveis como frutas, verduras, ovos e proteínas, fomento dos comércios da região, dentre outros.

Hoje conta com 6.324 famílias cadastradas e, até o momento,264 famílias foram beneficiadas em abril e 371 em maio. A previsão para junho, com base nas doações recebidas até o agora, é atender 274 famílias. Juliana Teodoro do Carmo, dona de casa e moradora da Favela da Felicidade no Jardim São Luís, é uma dessas famílias beneficiadas.

De acordo com Juliana, moradora da Favela da Felicidade no Jd. São Luís, a ajuda oferecida pela Fundação ABH tem ajudado bastante, pois sabe que vai acordar e ter o que dar para os seus filhos comerem. As famílias são identificadas por atores locais, que nasceram, cresceram e trabalham na região. Além disso, eles também fazem o monitoramento para saber se as famílias vão precisar do auxílio durante os 6 meses ou se conseguiram se estabilizar, sendo possível passar esse valor para outra que está em uma situação mais complicada.

A Rosângela Maria da Silva, babá e também moradora da Favela da Felicidade, costumava cuidar de crianças em casa, mas com a pandemia perdeu esse dinheiro extra. Ela também recebeu o apoio da Fundação ABH e, com 6 filhos, conta que a ajuda foi muito bem-vinda.

Também é importante destacar que todos podem doar para a campanha e não há limite de doações, ou seja, é possível doar qualquer valor. Segundo Marina Fay, Diretora Executiva da Fundação ABH, a prioridade é a doação em dinheiro, justamente por conta do valor depositado no vale alimentação, mas cestas básicas também são bem-vindas.

“O importante é que o resultado final seja comida nos pratos das famílias que precisam”, declara ela.

Veja alguns alguns dos resultados e evidências desse trabalho até o momento. 

PerifaSul 2050 e a segurança alimentar na periferia

A segurança alimentar também é um dos temas abordados pelo PerifaSul 2050, organizado pela Fundação ABH, com o apoio  do IDIS, e construção conjunta com os atores locais. Essa construção faz parte do processo de Desenvolvimento Comunitário Local, metodologia utilizada pela Fundação ABH.

Desde fevereiro de 2021, o PerifaSul 2050 tem discutido diversos temas que são importantes para os atores locais, dentre eles estão problemas relacionados à fome e à nutrição alimentar.

Algumas das ações propostas pelo grupo são: a conscientização dos moradores, através de cursos e palestras que permitam que as pessoas aproveitem ao máximo os alimentos sem desperdício, criação de hortas comunitárias e palestras sobre alimentação de baixo custo.

Auxílio Emergencial

Segundo Erlani Cristina, auxiliar de limpeza e moradora do Morro do Pullman, na Vila Andrade, zona sul de São Paulo, o apoio da Fundação ABH tem ajudado a trazer alimento para a sua família neste momento de desemprego. Ela também conta que o auxílio oferecido pelo Governo já foi o bastante, mas hoje não é o suficiente para suprir as necessidades da família.

“Eu recebo auxílio emergencial, a primeira remessa ajudava bastante, supria todas as necessidades, mas essa segunda remessa agora não tem condições de conseguir manter as contas e a alimentação básica com o valor que está sendo cedido pelo auxílio”, diz Erlani.

Neste ano o valor do auxílio emergencial pode chegar até R$ 375, mas esse valor ainda pode variar de acordo com a formação familiar, confira:

  •   Para quem mora sozinho, o valor de cada parcela será de R$ 150;
  •   Famílias com mais de uma pessoa e que não são chefiadas por mulheres devem receber R$ 250;
  •   Famílias chefiadas por mulheres receberão R$ 375.

 

Origem da data

O Dia Mundial da Segurança Alimentar, celebrado no dia 7 de junho, foi criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2018 e tem como objetivo divulgar a importância da segurança alimentar, desde a produção do alimento até o seu armazenamento e consumo, evitando danos para a saúde humana.

No ano de 2021, conta com o tema “Alimentos seguros agora para um amanhã saudável” que evidencia a importância de investirmos em sistemas de produção sustentáveis, garantindo a saúde das pessoas, do planeta e da economia a longo prazo.

Além disso, a data também busca chamar a atenção de todos para o papel que cada um precisa desempenhar, do campo à mesa, para garantir que os alimentos consumidos sejam seguros e não causem danos à saúde. A alimentação segura é considerada essencial para promover a saúde dos consumidores e acabar com a fome, dois dos 17 principais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Para saber mais sobre a campanha Pandemia Sem Fome e como ajudar as famílias necessitadas da zona sul de São Paulo, continue acompanhando nossos canais.

Até o próximo post!

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