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Desigualdade Ambiental em São Paulo: impactos na região Sul da cidade

De que forma as questões ambientais estão relacionadas ao Desenvolvimento Comunitário Local? Neste post, abordamos o conceito de desigualdade ambiental, debatemos os impactos da ocupação de áreas de preservação e de proteção de mananciais para a população da região Sul da cidade de São Paulo e apresentamos como as ações de desenvolvimento comunitário local podem contribuir para a mudança deste cenário.

 

Ocupação da Região Sul de São Paulo

A progressiva ocupação do espaço urbano ocorre a partir da expansão da cidade em direção à periferia e aos municípios vizinhos. Historicamente, o governo delega ao capital privado as providências relacionadas à ocupação do solo urbano, especialmente no que se refere à habitação e ao transporte. Como consequência, a população com menos recursos financeiros é expulsa da região central e fica segregada às periferias. Esta é, de maneira extremamente resumida, a explicação pela qual as grandes cidades criam e populam o que chamamos de periferia.

Especificamente na cidade de São Paulo – tanto na região Sul da capital quanto em outras regiões – é muito comum a existência da autoconstrução de moradias como alternativa encontrada pela população em loteamentos localizados em regiões periféricas. Em sua maioria, são construções improvisadas e desprovidas de infraestrutura.

A partir deste cenário, a expansão metropolitana da cidade acontece com base na incorporação de áreas até então consideradas periféricas, caracterizando uma reversão do padrão de crescimento periférico da cidade.

Vemos também na cidade de São Paulo e na região sul vários lançamentos imobiliários de alto padrão voltados à classe média alta e alta. Esses empreendimentos são responsáveis por novas valorizações de zonas residenciais, causando o que é chamado de processo de verticalização.

Com isso, os antigos moradores dessas regiões – agora visadas pelo mercado imobiliário –  são novamente expulsos para outras localidades: cada vez mais distantes, chegando então até as áreas de proteção de mananciais. E é sobre as áreas de manancial e suas ocupações que queremos falar!

 

O que é Desigualdade Ambiental

Numa comparação entre diferentes regiões da capital paulista, observa-se que entre os anos de 1980 e 2000, a região sudeste de São Paulo teve a maior taxa de crescimento da população em favelas. De acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), os padrões de expansão populacional observados nos últimos anos têm causado uma crescente pressão sobre as áreas de preservação ambiental e de proteção de mananciais.

A desigualdade ambiental se acentua em função do crescimento populacional registrado em Marsilac, Parelheiros e Grajaú, que contém extensas áreas de proteção ambiental e de mananciais, na periferia da Zona Sul de São Paulo.

Recentes e crescentes reportagens mostram também o aumento da criminalidade organizada em torno da invasão de territórios em áreas de manancial, além da comercialização e desmatamento ilegal destas terras.

Dentro deste cenário, desenvolver ações de conscientização e preservação das riquezas naturais nessas regiões significa garantir o desenvolvimento, a segurança e a qualidade de vida da população destas comunidades. Neste sentido, as práticas de desenvolvimento comunitário local, em conjunto com as ações do poder público, se mostram extremamente necessárias.

 

O Conceito de Desigualdade Ambiental

Desigualdade ambiental pode ser definida como a exposição diferenciada de indivíduos e grupos sociais a amenidades e riscos ambientais. (…) os indivíduos não são iguais do ponto de vista do acesso a bens e amenidades ambientais (tais como ar puro, áreas verdes e água limpa), assim como em relação a sua exposição a riscos ambientais (enchentes, deslizamentos e poluição). Dessa forma, fatores como localização do domicílio, qualidade da moradia e disponibilidade de meios de transporte podem limitar o acesso a bens ambientais, bem como aumentar a exposição a riscos ambientais” (TORRES, 1997)

Por outro lado, a desigualdade ambiental está relacionada com outras formas de desigualdade presentes na sociedade, tais como entre raça, sexo, e grupo de renda; ou seja, os indivíduos são desiguais ambientalmente porque também são desiguais socialmente.

Isso se torna mais claro e evidente quando estamos trabalhando em uma região que é uma mina de riquezas naturais. Este assunto já foi abordado em post anteriormente no artigo “PerifaSul: riquezas naturais na periferia sul de São Paulo”, como é o caso da Área de Proteção Ambiental (APA) Boreré-Colônia, localizada entre as áreas das subprefeituras de Capela do Socorro e Parelheiros.

 

Pesquisa realizada em Santo Amaro: disparidade evidente

Em estudo realizado na subprefeitura de Santo Amaro, na região Sul da cidade de São Paulo, pode-se perceber com dados, e de maneira bem evidente, a correlação entre a desigualdade ambiental e a desigualdade social.

A avaliação realizada por meio de geoprocessamento reforça a relação entre renda e acesso à qualidade ambiental urbana, apresentada pelos pesquisadores como ‘a provisão de condições adequadas para o conforto e a saúde da população, onde são consideradas as condições de abastecimento de água, destino do lixo, ocorrência de favelas e riscos de escorregamentos e inundações’. O artigo feito por pesquisadores da USP, disponível neste link, aponta que quanto maior a renda familiar, maior a qualidade ambiental.

 

“O rendimento dos responsáveis pelos domicílios teve forte correlação espacial com a qualidade ambiental urbana. As áreas com os piores índices estão desprovidas praticamente de todos os serviços públicos e são resididas pela população de renda mais baixa. Apenas as áreas com péssimas condições ambientais são acessíveis à população mais pobre, frequentemente, em favelas”.

 

 

As áreas em azul no mapa são as mais privilegiadas, ou seja, as que possuem maior qualidade ambiental. Elas são, também, as áreas onde estão localizados os bairros de alto padrão dentro do Distrito de Santo Amaro, como Granja Julieta e Chácara Flora. De acordo com o estudo, alguns setores localizados em bairros nobres apresentam-se em vermelho principalmente devido à ocorrência de favelas ou de áreas de inundação.

Levantamentos como este são essenciais para identificar os grupos populacionais mais vulneráveis e apoiar as tomadas de decisão na criação de novos projetos voltados ao desenvolvimento comunitário local. Essas informações são fundamentais, também, para a intervenção de órgãos de planejamento ambiental urbano e saúde pública. É proeminente a importância da realização de mapeamentos como esse em toda a periferia sul da cidade!

 

Projetos de Desenvolvimento Comunitário Local para a Igualdade Ambiental

Como apresentamos anteriormente, o desenvolvimento comunitário local é a combinação e orquestração de uma série de ações que objetivam a diminuição das desigualdades em uma determinada região ou bairro. Por meio dessas ações, é possível atuar na redução ou mesmo na eliminação dos danos ambientais causados pela desigualdade social e consequente desigualdade ambiental, que na cidade de São Paulo afeta especialmente a região Sul.

Reunimos 4 projetos presentes na região que atuam no desenvolvimento comunitário local a partir da preservação dos recursos naturais, do consumo consciente e do empreendedorismo.

 

Dá só uma olhada:

Megê Design Sustentável

O Megê Design Sustentável é um grupo interdisciplinar de artistas, arquitetos, construtores(as) e projetistas que atua desde de 2011 em comunidades, empresas e instituições para desenhar e executar projetos sustentáveis com menor impacto ambiental possível. Com a permacultura, a bioarquitetura, a bioconstrução e a arte como pilares, eles realizam atividades como oficinas de cisternas, tratamento biológico de água servida, bioarquitetura e construção natural, entre outros.

O projeto foi um dos contemplados pelo edital aTUAção PerifaSul, realizado pela Fundação ABH em parceria com a Fundação Alphaville, Instituto Jatobás e Macambira Sociocultural, com a proposta de realização de minicursos gratuitos que oferecem três formações à comunidade: montagem de biodigestor, montagem de cisterna e montagem de energia solar.

Quebrada Orgânica

O Quebrada Orgânica é uma iniciativa do Coletivo Exclamação que tem como objetivo minimizar os impactos ambientais negativos e abordar novas posturas de consumo e práticas sustentáveis na “quebrada” através da compostagem de resíduos, criação de hortas e ações artístico-culturais que levem o outro a refletir sobre essa temática.

Por meio da criação de composteira e cultivo de hortas pelas famílias da comunidade, o impacto acontece de dentro pra fora, com a diminuição da produção de lixo e da emissão de gás metano, e com a inspiração para outros moradores e o desenvolvimento de hábitos mais sustentáveis.

Rota Gastronômica do Cambuci

Projeto criado pelo Instituto Auá de Empreendedorismo Socioambiental inseriu-se recentemente no Plano de Ação da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo (RBCV) que fica na região sul da capital. O objetivo é resgatar o cultivo e o consumo deste fruto que é nativo da Mata Atlântica como meio de conservar as matas e gerar renda para os produtores da região da Serra do Mar Paulista. Houve o tempo em que o fruto esteve ameaçado de extinção: mas a Rota Gastronômica e este projeto mudou o cenário.

 

“Descobri aos poucos que tenho dom para a cozinha e hoje fico dividida pois também gosto de trabalhar com as mudas no campo, porém a demanda pelos produtos de Cambuci está crescendo. Já são mais de dez itens produzidos aqui, como o xarope, a geleia e os licores” – fala da Beth Sá, produtora da Rota do Cambuci em Parelheiros, participante do projeto do Instituto Auá, na zona sul da cidade de São Paulo.

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